Atualmente fala-se muito em inclusão enquanto opção educacional que coloca no mesmo ambiente escolar pessoas sem deficiências ao lado de outras que as apresentam em algum grau, capaz de comprometer a escolarização e/ou aprendizagem do aluno incluso.
Ainda tenho muitas indagações, pois o ato de ensinar, seja em ambiente inclusivo ou não, é uma complexa e difícil tarefa, que envolve e sempre está às voltas com valores, crenças, conceitos e preconceitos dos que estão nela envolvidos.
Não existe um ser humano pronto e completo, que não sofra, não tenha medos, não necessite de mais amor e atenção, que não sonhe em demasia para fugir de uma realidade não tão bela. Portanto, entendo que todos nós, intitulados "normais" somos inclusivos, pois somos, também, portadores de alguma necessidade.
Entre todos os portadores de alguma necessidade com os quais interagi, cito:
A muitos anos, fui professora de uma criança dependente de cadeira de rodas. Essa condição de cadeirante reduzia a autoestima do aluno e, consequentemente, comprometia a aprendizagem.
Com muito tato e dedicação consegui que ele compreendesse que tinha muitas qualidades e outros atributos que não só o uso das pernas. Começou a aprender os conteúdos, devagarinho, mas assimilou o suficiente para que adquirisse os pré-requisitos da série seguinte. Passado algum tempo, reencontrei-o e, para minha alegria e dele próprio, já estava dispensada a cadeira de rodas (usava muletas) e estava cursando a 5ª série.
O outro caso encontra-se no meio familiar. Tenho uma afilhada cuja idade mental parou nos oito anos de idade (agora está com mais de 30). Ela aprendeu a ler e escrever, mas para aplicar a adição (única operação que conhece) sempre é necessário o uso de material concreto. Ela tem, também, problemas de coordenação motora, mas sua memória é excepcional. Não pode-se prometer nada que não se pode cumprir. Ela vai cobrar! Passado o tempo que for.
Um dia ela me falou: "Queria ler e escrever como você, dinda."
Respondi: "E eu queria ter a tua memória".
Ela ficou muito feliz. Me superava em alguma coisa.
Este ano, tenho um aluno que está repentindo o ano letivo. Conforme o perfil apresentado pela escola, ele é um aluno de "inclusão".
Apresentava uma enorme dificuldade em armar e efetuar cálculos, compor e decompor numerais. Utilizei o famoso e dito arcaico "chiqueirinho", pois nem o material concreto estava conseguindo alcançar os objetivos. Ele agora está realizado, consegue acertar todas. Esta alegria está abrindo caminho para novas aprendizagens.
Numa Proposta Pedagógica Inclusiva devem ser considerados essenciais os seguintes aspectos:
@ Professor como agente de mudanças: O trabalho deve ser contínuo, para que o professor atue pedagogicamente, segundo a nova LDB e os Parâmetros Curriculares. Compete à Secretaria de Educação, ao núcleo diretivo e aos professores das escolas construírem continuamente suas competências, revendo suas atuações metodológicas e operacionais, a fim de corrigirem o rumo dos caminhos que levam aos objetivos da educação inclusiva.
@ Elevação da autoestima do aluno: A relação pedagógica vai além do que se ensina, ou seja, do conteúdo das disciplinas. O tipo de vínculo educador/educando é fundamental. Vínculo autoritário torna os alunos desanimados, agressivos e autoritários também. Vínculos de dependência tornam os alunos inseguros, pouco criativos e sem autonomia de pensamento. O diálogo, a negociação de direitos e deveres garantem elevação da autoestima, trabalho cooperativo e progresso na aprendizagem. Os vínculos baseados no respeito mútuo garantem a inclusão, a justiça e a democratização das escolas.
@ Aluno como articulador de uma aprendizagem: Ousadia, amor, coragem, sonho e alegria são ingredientes de vida e de juventude. Os novos paradigmas da educação exigem que estes ingredientes façam parte da formação interior do professor. Estes são os fatores que capacitam o professor a lidar sabiamente com a turma e estimulam o aluno a articular a sua aprendizagem.
"Quanta coisa eu preciso aprender
para me tornar caminho e caminhada.
Que é preciso bem mais gente que eu,
que há mais terra que estrada.
Que o caminho não nasce sem ser feito.
Caminhada não há se não se andar..."
(desconheço o autor)
EDIFÍCIOS OU TENDAS?
Trabalho no mucicípio de Sapiranga que, conforme o relatório de 2008 (2009 não está concluído), abriga 153 alunos com necessidades especiais atendidos no NAE (Núcleo de Atendimento ao Educando), provindos da zona urbaba, e um aluno da zona rural. Distribuídos em 20 escolas, há 20 professores que atendem estes alunos. A equipe de apoio conta com 8 profissionais: psicólogos, fisioterapeuta ocupacional, psicopedagogas, fonoaudiólogo.
A escola onde atuo como professora, Escola Municipal de Ensino Fundamental São Carlos, abriga 739 alunos e 33 professores. Destes alunos, 31 são considerados portadores de necessidades especiais: condutas atípicas, deficiência mental, dislexia, Síndrome de Down, perda parcial da audição. Alguns frequentam o NAE com diferentes modos de atendimento, 7 são atendidos por psicopedagogas e 2 por fonoaudiólogo. Na minha sala há 2 alunos de "inclusão" (dificuldades de aprendizagem).
A educação especial é amparada por lei. É citada na Constituição Federal de 1988, na Nova LDB, CNE/CEB, Política Nacional de Educação Especial. Todas, com palavras diferentes, buscam o mesmo objetivo: educação especial é a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais.
Conforme a Lei 9394/96 da LDBN: "Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender as peculiaridades da clientela da educação especial".
Como pode-se ver, a equipe de apoio é insuficiente para atender toda a clientela. Muitas vezes o professor percebe uma necessidade especial no aluno, encaminha para o NAE e, devido ao pequeno número de profissionais, este atendimento se arrasta por meses, até mesmo anos.
Tanto na LDBN: "O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, ejm função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns do ensino regular", como no texto de Cláudio Baptista: "No caso da educação especial brasileira, a discussão relativa à exclusão0 tem inicío na precariedade de acesso à educação especial ... há alunos que não podem ser incluídos". Quem são esses alunos? Não é disparidade este item dentro da Lei? Ou estes alunos colocam em risco a integridade física ou mental dos outros ditos "normais"?
Ainda na LDBN, Lei 9394/96: "...professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns.
O que será que consideram como "professores capacitados"? A grande maioria dos profissionais da rede regular pública não possuem capacitação alguma para esta clientela, apenas um grande amor pela docência e uma enorme boa vontade.
"Para concluir, gostaria de colocar em destaque apenas dois dos múltiplos sentidos
atribuíveis ao movimento de integração/inclusão:
favorecer que continuemos a questionar os ideias educativos
e fomentar nossa coragem de mostrar habilidade na construção de tendas".
(Cláudio Roberto Baptista)
Leis existem que garantem a inclusão social de alunos portadores de necessidades especiais. Não precisavam existir! Esses mesmos profissionais "incapacitados", independente de haver leis ou não, independente de obrar em grandes edifícios, munidos de muita coragem e muito amor, armam e desarmam suas "tendas" para ir de encontro aos necessitados.
Sejamos mais "tendas" e menos "edifícios" e tudo que se relacionar com a educação atingirá o sucesso.
E você, o que é? Tenda ou edifício?
ESTUDO DO CASO
Como disse anteriormente,nesta mesma página, no município de Sapiranga existem 154 crianças com necessidades especiais atendidas no NAE (Núcleo de Atendimento ao Educando). Estas crianças contam com o auxílio de psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogas.
O caso que estou estudando é sobre uma criança com síndrome de Down. Uma nenina que, aqui, passo a chamar de Maria.
Antes de falar sobre a Maria, senti necessidade de me interar sobre a Síndrome de Down: (fonte: wikipédia)
Geralmente a síndrome de Down está associada a algumas dificuldades de habilidade congnitiva e desenvolvimento físico, assim como de aparência facial. Esta síndrome é geralmente identificada no nascimento.
Portadores de síndrome de Down podem ter uma habilidade cognitiva abaixo da média, geralmente variando de retardo mental leve a moderado.
A síndrome de Down pode ser diagnosticada por algumas características físicas diferentes de outras crianças, que gera atraso nas funções motoras do corpo e mentais, o que representa maior lentidão no processo de aprendizado. Esse atraso no desenvolvimento pode ser minimizado com uma intervenção precoce por meio de fisiotarapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, além de abordagens psicológia e pedagógica adequadas.
Dentro deste quadro de carcterísticas existem muitos mitos: a síndrome de Down não é hereditária, não é resultado do grau de parentesco dos pais; problemas durante a gestação não influenciam na geração de um portador e é importante lembrarmos que o problema está presente em todass raças e sexos.
Em relação à expectativa de vida dos portadores, ocorreram muitas mudanças nos últimos dez anos com os avanços científicos, principalmente em relação a problemas cardíacos, uma das maiores causas de mortalidade entre os portadores. De todos os indivíduos com a síndrome, 50% apresentam má formação no coração.
Mesmo com suas limitações, os portadores desta síndrome podem exercer tarefas cotidianas normalmente. O convívio social de crianças, adolescentes, jovens e adultos com síndrome de Down é encarado cada vez com mais naturalidade.
A síndrome de Down apresenta comprometimento intelectual, motor e de linguagem em níveis diferentes. Normalmente a criança com essa síndrome tem a sequência de desenvolvimento semelhante à crianças sem a síndrome, contudo é alcançada em ritmo mais lento.
Agora, apresento-lhes a Maria!
Maria tem 12 anos e frequenta uma turma de 4º ano. Ela não fala, apenas emite sons semelhantes a "xixi" para ir ao banheiro e "água", quando tem sede.
Frequentou duas vezes o 1º ano. Durante este tempo, a única atividade que realizava era pintar (rabiscar) gravuras, sem respeitar os contornos.
No 2º ano, ela conseguia identificar as letras de seu primeiro nome, mas não na sequência correta. Esta identificação ocorria somente diante do alfabeto, nos textos ela não encontrava nada, se perdia na profusão de letras e palavras.
No 3º ano continuou mantendo este mesmo ritmo.
No 4° ano, já consegue relacionar a figura com a letra inicial do nome da figura, mas isto ocorre somente se houver alguém a seu lado, explicando, estimulando.
Maria frequenta o NAE, duas manhãs por semana.
Achei que deveria incluir isto: Maria consegue emitir mais sons, agora ela aprendeu a dizer "aipim". Não sei se ela sabe, na verdade, o que significa esta palavra, ou se aprendeu e gostou do som.
Consegui me interar de alguns outros aspectos da vida de Maria:
Ela começou com tratamento especializado somente aos quatro anos de idade. A mãe é uma pessoa muito exigente quanto à qualidade de ensino oferecida pela escola, porém não colabora para o crescimento de Maria: em casa, não há cobranças, não há limites, não é tratada como uma criança como deve e merece ser tratada.
A professora necessita ter cuidados especiais com os colegas de classe, para que não realizem as atividades para a Maria.
Na educação física: Alguns dias realiza todas as atividades com quase o mesmo pique que os colegas. Em outros dias, se nega a realizar as atividades, "fugindo" da fila e escondendo-se no bebedor, somente volta para a fila quando já passou sua vez.
A fonoaudióloga diz que Maria tem todas as condições de falar, não fala porque nunca foi estimulada. (a mãe não auxiliou no devido tempo).
Maria já menstrua.
"Os diferentes se encontram, trocam riquezas e
crescem juntos". (Leonardo Boff)
Meu relato, esta semana, é sobre sexualidade. Esta idéia surgiu ao ouvir uma observação da professora de Maria, durante o período de recreio: "Tenho de ver onde está Maria. Agora ela só quer estar acompanhada de meninos".
Pude facilmente deduzir que a sexualidade de Maria está aflorando. Diantemdisso, senti necessidade, ou melhor, curiosidade em saber mais sobre o assunto.
Não sou provida de livros que abordem o assunto, mas tinha uns apontamentos feitos em cursos que frequentei e nops quais colhi informações valiosas, tanto para familiares, como para professores de portadores de síndrome de Down.
As representações que nós, educadores e pais, fizemos da suxealidade de pessoas com Síndrome de Down referem, muitas vezes, a atitudes agressivas ou, então, condutas essexuadas, exclusivamente fundamentadas na afetividade. Diversas pesquisas me mostraram a existência de diferentes níveis de maturidade e de adaptação social na Síndrome de Down que, associados a fatores como excesso de cuidados parentais, falta de amigos e preconceito social, constituem barreras para a vivência plena da sexualidade.
Os pais tratam os filhos num padrão infantil de comportamento, pois temem assumir as consequências de um relacionamento sexual que pode resultar numa gravidez com risco de reincidência da síndrome. Os profissionais de educação sentem-se despreparados para orientar sexualmente a pessoa com Síndrome de Down e harmonizar as atitudes dos pais aos desejos sexuais dos filhos.
Havendo manifestação de sua sexualidade, o adolescente deve ser respeitado em sua curiosidade e deve ter oportunidade de compreender as situações na medida em que lhe for possível. A repressão, ou seja, o simples impedimento de que a criança manifeste qualquer atitude referente à sexualidade, tende a facilitar o aparecimento de comportamentos inadequados ou agressivos. Pra que o adolescente não seja simplesmente reprimido, é importante que as pessoas que convivem com ele acreditem em sua possibilidade de experimentar os ritmos normais da vida, tendo atividades, experiências e oportunidades como qualquer outra pessoa. Muitas vezes, pequenas oportunidades cotidianas podem devolver a dignidade aos jovens com Síndrome de Down, como, por exemplo: tomar banho sozinho, escolher a roupa que vai usar, ter um lugar onde possa ficar sozinho, ser capaz de fazer escolhas,...
Somente esta semana consegui reunir um parecer descritivo sobre a menina Maria, onte todos os professores que atuam junto a ela colocaram suas observações ao comportamento, aprendizagem, desenvolvimento.
Até agora, o meu "Estudo do Caso" foi baseado no diálogo com a professora titular e nas minhas próprias observações sobre a menina.
Ouve um crescimento, melhor, desenvolvimento em alguns aspectos.
Maria continua sendo uma menina meiga e muito querida por todos, mantem um ótimo relacionamento com os professores e os colegas. No entanto, em alguns momentos, não sabe-se o motivo, tende a se isolar.
Tem boa compreensão do que lhe é falado (tipo: pega aquela coisa, leve isto ali), mas ainda apresenta muitas dificuldades na comunicação oral.
É organizada com o seu material escolar, obedece e adora ajudar nas tarefas cotidianas na sala de aula, porém apresenta dificuldades em seguir uma sequência na entrega de materias para os colegas (folhas xerocadas ou mimeografadas, por exemplo).
Conhece as partes do corpo (tipo: mostra o pé, a cabeça, o braço) e já reconhece as letras do seu nome, as vogais e algumas consoantes. Está escrevendo o seu nome, mas algumas vezes confunse-se com a sequência correta das letras.
Monta quebra-cabeças (3 ou 4 partes, no máximo), adora os jogos propostos pela professora, mas sempre necessita de auxílio para efetuar as jogadas.
Além das atividades rotineiras (da professora regente e da professora de filosofia), Maria recebe atividades diferenciadas. Tem dias que demora mais para realizá-las, em outros não. mas, mesmo assim, vem demonstrando evolução na realização de suas atividades.
Nas aulas de educação física, aparecem algumas situações diferenciadas.
Em certos dias, realiza as atividades de aula dirigida por até 40 minutos, após este tempo, perde a concentração (no ano passado, ela só conseguia se concentrar por no máximo 20 minutos).
Tem dias que se nega a realizar as atividades. Senta e não se entrosa com a turma. "Foge" para o banheiro e fica lá por um tempo maior que o necessário. Na volta, mantem uma comunicação (nunca oral) somente com o professor ou com um colega, em especial, que ela escolhe.
Nas atividades em trave de equilíbrio, ela passa, mas auxiliada. Ao chegar ao centro da trave, precisa sentar e descansar para depois completar o trajeto. Na maioria das vezes, "foge" para o banheiro quando chega a sua vez. Ao retornar, se coloca no final da fila.
O professor também já observou o desenvolvimento sexual de Maria. Agora, ela já mantem uma relação física com o sexo oposto: aperta a nádegas dos meninos, abraça-os e beija-os, sempre em demasia. A turma, que tem um cuidado especial com ela, logo a distrai com alguma outra coisa e nunca ridiculariza estas atitudes.
Durante esta semana, não tenho muito o que falar de Maria. Ela simplesmente está apática, nega-se a realizar toda e qualquer atividade que lhe é proposta, seja na sala de aula com a professora titular, seja nas aulas de filosofia ou de educação física. Se algo lhe é apresentado, ela sacode a cabeça em negativa e emite sons que significa "não". Ninguém sabe responder a causa desta apatia. Como ela não sabe expressar seus sentimentos, a equipe docente fica "ás cegas", sem ter uma fonte de apoio. Maria tem sentimentos como qualquer ser humano, mas o que será que ela sente durante estes momentos que "foge" da interação com os colegas e professores?
AVALIAÇÃO
Para ter condições de dissertar sobre a avaliação educacional de Maria, me reuni com os professores que trabalham diretamente com ela, e com a direção da escola.
Maria é uma aluna do 4º ano que mal reconhece as letras de seu nome e não tem nenhuma noção de número e quantidade. Como, então, pode estar frequantando o 4° ano?
Digamos que nunca foi aprovada, nunca "passou" de ano. Ela sempre foi promovida. Promovida para não "quebrar" a socilização de crianças com a sua mesma faixa etária.
A avaliação de Maria é diferenciada, através de um parecer descritivo baseado nos relatórioa individuais dos professores de Maria (titula, educação física, filosofia) e uma nota. Este registro é encaminhado à família e ao NAE e é acompanhado pelo objetivo educacional e o que foi atingido pelo aluno.
Quanto à minhas leituras e interpretações dos textos propostos, reproduzo aqui alguns parágrafos:
"A possibilidade de atuar junto a alunos que apresentam algum tipo de desvantagem para aprendizagem gerada por suas condições sociais, culturais ou biológicas apresenta ao professor a necessidade de buscar elementos significativos capazes de evidenciar situações de vida que apontem uma sintonia enetre ele e os alunos" (1)
Não quero, aqui, colocar em questão o comprometimento de minhas colegas enquanto professoras de Maria. Muito pelo contrário, sou testemunha do quanto se empenharam na socialização da menina e na busca de alguma aprendizagem que justifique a sua condiçção de aluna de um 4º ano.
"Educar na diversidade pressupõe a adoção de um modelo de currículo que facilite a aprendizagem de todos os alunos e alunas em sua diversidade.... Que práticas de ensino ajudam os professores a ensinar os alunos de uma mesma turma, atingindo a todos, apesar de suas diferenças?" (2)
Nossa escola entende como escola inclusiva um sistema de educação e ensino onde os alunos com deficiência são educados na escola, em ambiente de salas de aulas regulares, apropriadas para a sua faixa etária, com colegas que não têm deficiência e onde lhe são oferecidos ensino e apoio DE ACORDO com as suas capacidades e necessidades individuais.
A socialização dos alunos parece-nos ser a grande vantagem deste novo modelo de escola inclusiva, porque no que diz respeito à motivação para aprendizagem pelos alunos podem ocorrer muitas dificuldades. A heterogeneidade existente entre os alunos sempre pode ser positiva.
"Em especial, no caso dos alunos com necessidades educativas especiais, a linguagem permite configurar um espaço de convivência que busca a interação. Só é possível perceber os outros pontos de vista ao entrar em contato com eles. Isto justifica, também, a convivência que, na visão da educação inclusiva, propõe espaços para ainserção de todos os alunos em situação de desvantagem, a partir de seus interesses e condições individuais". (1)
"O estudo refere-se às possibilidades de "mudanças de olhar" para a prática educativa com sujeitos cérebro-lesados, com comprometimentos sérios no desenvolvimento mental, considerando as relações ea mútua constittuição entre investigador e sujeito da investigação, entre aquele que ensina e aquele que aprende".(3)
Na minha modesta opinião, aqui, há uma incoerência. Se uma criança inclusiva não adquire aprendizagens do mesmo modo que uma criança não inclusiva, é fato que ela não pode ser avaliada do mesmo modo. Entendo que o verdadeiro papel da educação inclusiva é promover a socialização do aluno, que ele cresça e mantenha uma interação social com sujeitos que correspondam a sua faixa etária e a inclusão não favorece somente o aluno portador de necessidades especiais, favorece os não portadores também, pois eles aprendem a conviver e a aceitar as diferenças.
A inclusão implica, em primeiro lugar, aceitar todas as crianças como pessoas, como seres humanos únicos e diferentes entre si. As diferenças individuais existem entre todos nós e não se justifica classificar grupos de pessoas como sendo especiais, e segregá-los na escola e em outros ambientes de vida.
Diversas pesquisas têm evidenciado que o convívio com pessoas com deficiência promove o acesso a uma gama mais ampla de papéis sociais e o respeito às diferenças, desenvolve a cooperação e a tolerância, favorece a aquisição do senso de responsabilidade, além de melhorar o desempenho escolar, pois o aluno "normal" sente-se gratificado em poder ser a mola de motivação para o aluno não "normal".
(1) "A Rede de interações como concepção pedagógica: alternativas no espaço da sala de aula com alunos em situação de desvantagem", por Lenise Henz Caçula Pistóia.
(2) "Diversidade e Currículo", por Lenise Henz Caçula Pistóia.
(3) "Práticas Educativas: Perspectivas que se abrem para a educação especial"., por Anna Maria Lunardi Padilha.
CONCLUSÃO
Uma das principais mudanças socioeducativas ocorridas nas últimas décadas foi a democratização do ensino, de permitir o acesso à escolaridade a todas as crianças e jovens. Assim, o ensino elitista, só acessível a quem tinha condições econômicas para o frequentar, deu lugar a um sistema de ensino acessível a todos, sendo inclusivamente obrigatória a frequência nos primeiros anos de escolaridade.
A escola inclusiva integra-se nesta perspectiva de escola aberta a todos, sendo fator de integração e inclusão de alunos, inclusivamente sociocultural, e de professores que buscam ser a ponte entre a criança inclusiva e o mundo do conhecimento. A sociedade espera que esses professores possuam competências que ultrapassam o mero domínio dos conhecimetos da sua área de saber a transmitir aos alunos. Sabe-se que não é bem assim, a maioria dos profissionais de educação recebem alunos aos quais não pode oferecer muito, além de sua boa vontade e muito amor e dedicação.
Partindo da premissa que o principal objetivo do sistema de ensino é conduzir todos os alunos no sentido de atingirem as propostas fundamentais da aprendizagem, esta exigência só será possível se passarmos de uma pedagogia do ensino para uma pedagogia da aprendizagem, onde se procure investigar as condições propícias à apropriação, por parte do aluno, dos objetivos de aprendizagem. Assim, invés de utilizar um ensino coletivo, conduzido passo a passo e com sequências de aprendizagem organizadas previamente, o professor deverá, por um lado, compreender a forma como cada aluno constrói e desenvolve a sua aprendizagem e, por outro lado, proporcionar orientações individualizadas a partir das dificuldades que o aluno apresenta. Esta estratégia não só favorecerá os alunos com dificuldades na aprendizagem como, também, os alunos que aprendem "só com um toque", pois eles poderiam adquirir os conhecimentos mais rapidamente, sem ter de esperar por todo o ano letivo. Seria possível uma pedagogia de aprendizagem em salas de aulas superlotadas?
É uma idéia interessante, mas utópica!
Comments (8)
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 7:56 pm on Apr 7, 2009
Suzan, com certeza eles nos superam em algumas coisas, aproveita essa memoria que ela tem e usa estratégias para ela continuar sua aprendizagem, como usaste com o teu aluno, e conseguiste ótimos resultados.
Abraços
Maria del Carmen
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 12:53 am on Apr 21, 2009
Suzan, aos poucos a equipe de profissioanais vai ir aumentando, para poder abranger um numero maior de atendimentos aos alunos, devemos de acreditar nisto, como você colocou sejamos mais tendas, não adianta ficar no discurso que não se tem a aparelhagem necessária, deve-se buscar meios para ajudar o aluno, usar de criatividade.Com certeza sou tenda.
Abraços
Maria del Carmen
liliana said
at 9:46 pm on Apr 23, 2009
Suzan
o ultimo caso que relatas "Conforme o perfil apresentado pela escola, ele é um aluno de "inclusão"" além das dificuldades que mencionas ele tem algum tipo de síndrome conhecida? o que mais poderias apontar como caracteristica deste caso??
podes nos contar malis também as estratégias que utilizastes para superar suas dificuldades com cálculo?
abraços
lili
Suzan Pereira David said
at 6:01 pm on May 9, 2009
Não Liliana!
Ele não tem nenhuma síndrome conhecida. Ele apenas apresenta muita dificulada de para aprender, é incapaz de fazer hipótese sobre coisa alguma e necessita do apoio de material concreto para realizar cálculos.
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 9:54 pm on May 12, 2009
Oi, Suzan, lendo teu relato sobre Maria, nos contas que ela esta na 4ª série e ela apenas consegue recconhecer algumas letras e não identifica as letras com o nomes de algum objeto mostrado, tu achas que ela esta sendo "incluída" na escola?
Abraços
Maria del Carmen
Suzan Pereira David said
at 9:14 pm on May 13, 2009
Olá Del Carmem!
Concordo plenamente com você: esta criança não está sendo "incluída" na escola.
Na minha opinião, A maria está sendo "depositada na escola", passando de ano em ano, de professora em professora, sempre com os mesmos colegas.
Não culpo minhas colegas (Maria nunca foi minha aluna), pois ao final de cada ano letivo, reúnem-se o professor, a direção da escola, os profissionais do NAE e da APAE,e, apesar da argumentação da profesora de que Maria deveria repetiro ano, este pessoal especialiozado resolve"promovê-la".
Para mim isto não é "inclusão", é colocar a criança diante de ouras crianças da mesma idade, porém anos além em aprendizagem.
Ouso dizer que isto está mais para discriminação. Não sei o que se passa na mente de Maria, mas com certeza ela deve se sentir perdida em vislumbrar cenas onde seus colegas agem com a maior naturalidade e ela não consegue entender nada.
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 9:04 pm on May 31, 2009
Suzan, com certeza,em muitas ocasiões ela deve de ficar completamente perdida, sem saber o que fazer, sem entender o que os colegas estão fazendo e tambem sem entender o que a professora fala, isto não é inclusão, é uma maneira sutil de exclusão. Agora não entendi o final do teu texto, porque falastes sobre autismo?, ela tambem é autista?. Esta semana´é para flar sobre autismo no forum, aqui é para falar sobre o teu estudo de caso, sobre o teu sujeito.
Abraços
Maria del Carmen
liliana said
at 11:32 pm on Jun 24, 2009
Oi Suzan
como esta teu caso? conseguiste algum progresso nesta semana? espero que sim.
falta apenas concluir a unidade 7 que fala um pouco da avaliação, como é feito isso com a Maria? existe algum tipo de acompanhamento especial?
complementa o que já tens colocado, aguardamos
liliana
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